Sigam-me os bons

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Não existe nada pior no mundo do que estar sempre certa. Já pensei em largar a faculdade e trocar meu currículo por um belo cartaz de “joga-se búzios e tarô”, espalhados pelas ruas de São Paulo, mas eu não teria saco para lidar com as consequências.

Acontece que pessoas, além de chatas, são previsíveis.  Erros são previsíveis, o caos é previsível. E, ah, cadê paciência? Se tudo isso é previsível, por que não evitar? Só que as pessoas gostam do caos, de complicar. E daqui dois meses desempenharão os mesmos erros.

Bom, eu não sei vocês, mas eu cansei de repetir meus erros e meu papel de louca-da-feira. Dá um baita trabalho, consome uma energia danada e eu não ando com paciência – nem discorro de tempo – para tudo isso. A vida é curta e os prazos do TCC também.

Então, adotei um novo comportamento: o de retardada. A partir de agora, finjo que nada sei – e divido minhas conclusões apenas com os bons, assim como o Chapolin. Larguei mão de covardia, de ajudar quem não quer ser ajudado, de gente fraca, covarde, acuada. Infeliz.  

Felizmente, o mundo que dividimos está cheio de gente assim (e, confesso, dá um certo alívio pensar que boa parte da humanidade não sai da caixinha a qual foi destinada). Só que agora, em vez de bater de frente com as fraquezas dos outros decidi, primeiro, aprender a lidar com as minhas. E, de todos meus defeitos, fraqueza não é um deles.

A partir de agora eu rio de todos os rótulos que me colocam. E, dentro de mim, gargalho com tudo que vejo sem que ninguém mais possa ver.

Que me perdoem os outros, mas não nasci pra ser miss, seguir regras, Freud ou Nietzsche. Nasci pra ser feliz.

65 meses e 38 semanas

- O que você veio fazer aqui?, perguntou o médico da ultrassonografia

- Acho que estou com um cisto, respondi sem medo.

- … Olha o seu cisto, ali.

Meu cisto tinha menos de 15 cm, pesava pouco mais que um saquinho de presunto e levava o dedo na boca.

Como vou terminar a escola? E a faculdade? Como vou trabalhar? Contar para o meu pai?. Milhares de questionamentos sem respostas invadiram minha cabeça.

Não foi fácil, filho. Mas agora eu era mãe. Ouvi risadas pelos corredores da escola e quase nenhum apoio. A barriga crescia, o peso aumentava, a coluna doía. Não enjoei nenhuma vez. Não tive azia, desejos, estrias. Tive impaciência, ansiedade. Foram as 38 semanas mais rápidas de minha vida.

E quando chegou, com nome, sobrenome e apelido, era meu. Meu pelo resto da vida. Que sensação estranha.

Conheço você há muito tempo, pequeno. De estranho você não tem nada. Shhh, não precisa chorar. Vem cá, tem cama quentinha, cafuné e carinho. Tem Cartoon Network também. Tem Ben 10, carrinho da Hot Wheels, bola de “chutebol”, camiseta do São Paulo.

Como é bonito te olhar, filho. Seus olhos, nem azuis, como os meus, nem castanhos, como do seu pai. São profundos, sensíveis, tem tanta coisa para ainda me mostrar. Fiz papinha de maçã, tomei banho de xixi, ri de mim e de você. É, filho. Foi isso que você me ensinou: rir de mim. Da gente, da vida. Eu e você. Vovô e vovó.

O Pequeno Príncipe? Me ensina a escrever com letra de mão? Joga bola comigo? Faz pipoca com ingredientes secretos?

Eu choro, filho. Por medo, insegurança, pela sua grandeza. Não me canso de aprender com você.

Obrigada, neném. Sem você não sou.

Destino

Mal caiu do ninho, passarinho resolveu desbravar a cidade. Procurava uma sombra fresca em meio à caótica cidade e encontrou uma varanda. Enquanto descansava, enxergou um lustre, do outro lado do vidro. Era a coisa mais linda que havia visto em sua existência. Brilhava, reluzia, refletia. Obcecou. Era só aquilo que habitava sua mente de ave.

A paixão foi tanta que cegou. Perdeu o chão, a razão. O amor impossível. Sol e lua, noite e dia. Se viam, mas não se tocavam. Teimou, quis mudar o destino. Voou com toda força que um passarinho há de ter.

Tão perto de seu objeto de cobiça, bateu a cabeça no vidro e morreu.

Shhhh!

Sei que seu marido não gosta de sua agência de viagens, e acha que você o abandona, todas as vezes que faz seu trabalho. Sei o preço de um cruzeiro e de uma viagem de 7 dias para Maceió.

Sei que Fernando, seu filho de 12 anos, gosta de futebol, anda de skate e tem dificuldades com matemática. Como qualquer garoto da sua idade, ele não gosta de fazer lição de casa. Dia desses, jogou Veja na fonte que enfeita sua sala. Ele também nunca chama a moça que limpava sua casa pelo nome, Tatiana. Acha mais bonito chamá-la por sua função: “empregada”.

Tatiana é evangélica e passava por dificuldades financeiras. Pediu um adiantamento de salário. Dias depois, ligou dizendo que não iria mais trabalhar na sua casa.

Sua mãe, Margareth, mora no interior e quase sempre vem se hospedar na sua casa. O marido não gosta muito disso.

Teddy, o cachorro, aprendeu (finalmente!) a fazer xixi no lugar certo e você parou de gritar com ele, que também parou de uivar durante madrugada. Isso você não deve saber, já que seu quarto fica longe do seu quintal – que é ligado com a janela do lugar onde durmo.

O pedreiro que fez a reforma de sua casa gosta de MPB e escuta Nova Brasil FM. Ele canta Marisa Monte e Ana Carolina com o coração. Tem alguns problemas conjugais, porque a mulher gosta de ir para o forró às sextas.

 

Quando era pequena, olhava por minha janela e imaginava o que se passavam nas casas e apartamentos ao meu redor. Hoje, sei tanto sobre sua casa e dia a dia que me sinto sua melhor amiga.

Vizinha: por favor, fale mais baixo. (e dê bom dia quando me encontrar na rua)

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