Chove forte. Me…

Chove forte. Me perguntam como foi a viagem. Respondo que sim, que pelo menos a chuva serviu para limpar o carro. Lembro do cachorro morto na estrada. Preto, estático, os pêlos molhados. Um cadáver no meio de duas faixas, que não poderá receber ajuda. Ficará lá até a chuva passar, o movimento diminuir. Alguém se lembrar.  Vai saber…
Abro o porta-malas do carro e sinto seu cheio. Debaixo da mala, um casaco seu. Tenho a sensação de que não importa o quanto eu corra, você ainda vai me seguir.
Algumas horas atrás, nesse mesmo carro, você me pede mais uma chance. Fala sobre sua insegurança, seu medo em me perder enquanto eu observo o cigarro queimando, a fumaça pelo retrovisor. Por algum motivo você sabe que eu vou voltar. Para pedir um trago, um abraço, cafuné. No fundo, sei que tudo vai se repetir.
Jogo o cigarro pela janela, arranco com o carro. Arrumo as malas e vejo seu prédio pela janela. Acelero para não voltar. Paro no pedágio, mas as lágrimas não param de descer.
A chuva fica ainda mais intensa e não consigo enxergar bem. Penso em pegar o primeiro retorno, mas prefiro seguir em frente. Choro mais uma vez.

Chego ao meu destino.
– Como foi a viagem?
– Boa. Pelo menos serviu para lavar o carro.

Mas amanhã paro no primeiro lava-rápido. Não quero seu cheiro.
Nem nada seu.

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