Terça-feira

Ainda jantava quando o carro parou na frente de casa. Era a segunda vez que escutava aquela buzina ali. Saio pelo portão enquanto sinto a brisa fresca de uma noite quente de inverno.

Entro no carro e te cumprimento com um beijo no rosto, como se nos conhececemos há muito tempo. Observo o jeito como você dirige e sorri, com o canto dos lábios. É então que tenho certeza do que me assolava há alguns dias: iria me apaixonar por você.

Algumas voltas depois, você me convida para uma cerveja. Duas, três, quatro. Vou ao banheiro e, enquanto lavo as mãos, consigo te observar pelo espelo. Você mexe no seu celular e é como um déjà vu: conheço aquela cena, seu cabelo, o jeito de falar. Volto para a mesa.

Vamos ao bar novo que abriu aqui ao lado? É gay, tem dj, a cerveja é barata. Minha vontade é sentar no seu colo e te beijar ali mesmo, na frente do garçon hipster-de-Osasco e dos babacas da mesa ao lado, que não param de olhar para minhas pernas. Vamos!

Já na rua, você conversa com o dono do tal lugar, que não vai abrir naquele dia. Está cedo. Não quero voltar pra casa. Me leva pelo braço, pra onde quiser. Me leva com você. Decidimos voltar.

O bar, então, é nosso. Mais uma cerveja? Duas. Falamos sem parar, você me deixa sem graça e seu celular recebe algumas mensagens, que você ignora. Paro de reparar em seu sorriso e pela primeira vez presto atenção em seus olhos. Esse é o momento do filme em que a mocinha – que não é tão mocinha assim e revela seus defeitos a cada bloco – se apaixona.

Saímos do bar sem pagar e sinto frio. Você me aquece com a sua blusa. A volta para casa é curta e então você estaciona na frente da garagem. Minha vontade continua sendo a de te beijar, mas dou um beijo rápido no rosto e saio do carro. Da janela, você grita: vamos sair mais!

Sim. Todos os dias, daqui pra frente. Sem exceção. Não fica longe, não vai, não se afasta de mim. Não me deixa te afastar e fazer com você o que faço com todos e vê o que há de bom em mim.

Balanço a cabeça respondendo que sim e você retruca: então vamos agora! Dou risada como uma adolescente sebosa, que nunca beijou na boca e sumo pelo portão. Subo as escadas e, ainda com sua blusa, sento na cama. Sinto a ressaca batendo. Abro a janela e, no escuro, tiro toda a roupa. Deito na cama e fumo um cigarro. Não vejo lógica no que aconteceu e nem no que sinto nesse momento. Um misto de felicidade e medo me invade. Nua, sem maquiagem, disfarces ou proteções, sinto como se tivesse acabado de fazer sexo. Blowing mind sex. Então, entendo. Pessoas incríveis são assim. Não precisam encostar para me fazer gozar.

Amanhece.

Bom dia.

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